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sexta-feira, 13 de maio de 2011

Imaginação: Ida à Terra...

A paisagem que passava por eles do lado de fora da janela, modificava-se enquanto a manhã ia chegando.  Iam os quatro, janelas fechadas para impedir a entrada do frio e da humidade da madrugada.  O rádio ia vomitando músicas em incessante desfile, em que o gosto de um se sobrepunha, à vez, aos dos outros três.  Os pais, à frente, respiravam longos fôlegos de felicidade instantânea…  afinal, iam à terra!  No banco de trás o rapaz e a rapariga, a quem lhes foram retiradas as consolas portáteis de que as suas mãos pareciam depender (“mas mããããeee!” “já disse que não!  Não morrem por não jogarem 3 dias!”) mostravam a sua indignação com um silêncio ensurdecedor.
Duas vezes por ano acontecia este desfile; Natal e Páscoa!  Ainda tinham tentado inserir na tradição as férias de verão, mas as praias do Algarve eram muito mais sedutoras que as planícies do Alto Alentejo.  E então, quer fosse com a promessa das azevias de grão, quer atraídos pelo ensopado de borrego, duas vezes por ano voltavam às raízes.  Os pais tentando, num esforço que era palpável, afirmar que a vida na cidade não lhes apagara os traços campestres.  Os filhos fingindo que isso lhes interessava.
Durante 2 semanas fingiam que eram uma família unida, daquelas que planejam e fazem tudo em conjunto…  Mas aquele apartamento num 5º andar em Queluz sabia bem o que os sorrisos escondiam…  Cada qual no seu quarto, tentando ao máximo ter o mínimo de contacto com os outros…  bendizendo a sorte que lhes permitia ter um quarto para cada um (excepto no caso dos pais…  se não contarmos com as variadas noites em que um acabava por adormecer no sofá, frente ao televisor, enquanto fazia tempo para que o cônjuge, que já se apoderara da cama, adormecesse - de forma a evitar ter de trocar a meia dúzia de palavras da praxe sobre “como foi o teu dia?”).
Ali não!  Ali era “A Terra”!  Ali era o Berço!  Ali viviam ainda todos os sonhos de meninos que os pais se atreveram a sonhar antes de se aperceberem que a idade limita os sonhos e a realidade castra os desejos. 
Não!  Ali, duas vezes por ano, podiam ser o que um dia tinham idealizado…  Ali os filhos eram bem educados e preocupavam-se com eles…  Ali eles tinham tempo para os filhos e um para o outro…  Ali as refeições eram saboreadas à mesa, em conjunto, e não num tabuleiro de plástico da loja dos chineses poisado sobre os joelhos em frente à televisão…  Ali o tempo passava lentamente, respeitando as pequenas coisas da vida…  Ali as noites eram silenciosas, os dias serenos e parecia haver constantemente no ar um cheiro a flores e a giestas…
Ao fim do quarto dia todos ansiavam, secretamente, pelas filas do IC19, pelos apertões no metro e pelo constante ruído da cidade, pautado pela sempre presente sirene da polícia/bombeiros/ambulância…  Mas escondiam envergonhadamente os pensamentos, enchiam o peito daquele ar puro que os seus pulmões estranhavam, e afivelavam um sorriso nos lábios…  Afinal…  Estavam Na Terra!

segunda-feira, 14 de fevereiro de 2011

Imaginação: A Espera

A casa, sempre silenciosa e quieta, ficava num rés-do-chão alto de um prédio antigo.  O prédio, dos primeiros a ser construído naquela rua, tinha mais três andares para além daquele.  Ao todo, oito famílias co-habitavam debaixo do mesmo tecto.  Quase todos viviam ali à bastante tempo, mais de trinta anos, sendo que os últimos a entrar naquela família haviam chegado à 9 anos, quase uma década.  Todos se tratavam pelo primeiro nome, e, de há uns tempos para cá, todos se preocupavam com a D. Ana Bela.
Ao entrar no prédio, irremediavelmente, lançavam um olhar para as janelas do rés-do-chão.  Mesmo que tentassem olhar para dentro de casa, o que era difícil pois os parapeitos ficavam acima da cabeça da maior parte dos habitantes do edifício, não conseguiriam ver nada pois os estores de plástico encontravam-se sempre fechados.  Pelas pequenas nesgas dos intervalos julgavam, por vezes, poder vislumbrar o olhar da idosa senhora, mas nenhum ruído ou movimento indicavam que alguém se encontrasse em casa.
As coisas nem sempre foram assim…  a casa da D. Ana Bela e do Sr. Jacinto era, por norma, o ponto de encontro de todos.  As reuniões da administração davam-se no apartamento decorado de forma aconchegante, onde a mais ínfima partícula de pó encontrava os dias contados.  Os aniversários da filha, Rosarinho, eram festejados por todos como se da sua própria filha se tratasse e, em tempos de aperto, sabiam que ao bater àquela porta saiam reconfortados.   Mas as coisas tinham mudado… 
Rosarinho abandonara-os há já vinte e sete anos.  A doença fragilizara-a e nem o apoio dos pais e do marido a tinham conseguido ajudar.  Na altura, a incógnita da maleita deixara, para além da tristeza e do desespero, uma enorme revolta no coração de todos.  Anos mais tarde ouviu-se falar em Lúpus, e tudo começou a fazer mais sentido.  Aos poucos e poucos todos retomaram a sua vida e a jovem tornou-se uma doce recordação na mente de todos, a lembrança de alguém puro e meigo que partira antes do seu tempo.  Só D. Ana Bela e o Sr. Jacinto pareciam, ainda, conviver diariamente com o espectro da filha.  O brilho no olhar de ambos apagou-se e as gargalhadas da mulher, outrora tão fáceis e límpidas que limpavam a alma de quem as ouvia, tornaram-se raras.  As festividades escasseavam.
Há 3 anos, por volta do Dia da Liberdade, Jacinto partira.  Ana Bela, de solitária, passou a só.  Nada havia de estranho neste abandono e todos sussurravam, longe dos ouvidos da viúva, “que é que querem?  Já era velho!”  Mas para Ana Bela, que o conhecera na frescura dos seus dezassete anos (contava ele vinte e três) sempre o vira como o jovem magro e garboso que a perseguira durante 11 meses, até ela aceder que ele pedisse ao seu pai, homem hirsuto e seco, permissão para a namorar.  Oito meses depois fazia dele seu marido.  E agora ali se via…  viúva e órfã de filha.
Aos poucos as saídas diminuíram, até cessarem por completo.  A luz do sol, que durante anos fora visita assídua do apartamento, encandeava-a com o seu calor, e mantinha-a longe com a ajuda dos estores e de pesados reposteiros.  Música, gargalhadas, até a voz dos outros, feriam-lhe os ouvidos por não trazerem consigo o timbre das vozes que ansiava.  O brio que sempre a guiara na gestão da casa parecia-lhe agora uma futilidade.  Ninguém entrava na casa, ninguém queria saber se o pó se acumulava, se as pratas eram areadas, se o ar era pesado, húmido e estagnado.  De noite, quando todos dormiam, ia por vezes ao contentor do lixo em frente ao prédio, sempre que um saco atingia a sua capacidade máxima.  Mas o ar fresco da noite parecia atingi-la como uma bala de obus.  A única coisa que a preocupava, ainda, era estar sempre impecavelmente vestida, calçada e arranjada.  Todas as manhãs, ao escolher um dos muitos fatos de pesado luto que formavam agora o seu guarda-roupa, passava a escova nas vestes negras, penteava-se com o esmero que Jacinto sempre lhe elogiara, colocava a pregadeira de sua mãe (sua única herança) ao peito e aguardava.  Esperava, assim, que quando finalmente a encontrassem, estaria pronta para se reunir a Eles.  Uma vez por semana, Mariana, a jovem de cinquenta e quatro anos, do piso de cima, levava-lhe as mercearias da semana.  E todas as semanas Ana Bela pensava “talvez seja desta”.
Mas a Morte passava na rua e, olhando para as janelas silenciosas e quietas, julgava a casa vazia.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

Imaginação: Perspectivas

Não há nada como acordar com uma carta, da pessoa certa, à nossa espera…

“Dear John


Há coisas que, de tão importantes, devem ser ditas por carta, de forma a termos a certeza que chegam claramente a quem se dirigem.  Dizem que as cartas de amor são ridículas…  talvez as de desamor sejam respeitáveis.  O amor, acabei por o descobrir mais tarde do que esperava, não é o sentimento egoísta e castrador que sinto por ti…  ou sentia.  O amor é um sentimento nobre, avassalador, que não conhece limites.  Quando te conheci era uma miúda, sem saber nada da vida, cada dia era uma descoberta sobre mim mesma, uma aventura.  Foi uma fase confusa e desesperante que agora, em retrospectiva, agradeço ter vivido.  Ter-te conhecido nessa altura permitiu que te recebesse de braços abertos, quase grata, na minha vida.  Mas, à luz da pessoa que me tornei, uma pessoa que ainda que por vezes não goste adoro poder ser,   vejo que foi um tolo erro de criança quase mulher.  Como a compra precipitada de um par de calças que nunca se chega a usar.  A culpa não é tua.  Tu continuas a ser a mesma pessoa que eras há 15 anos atrás.  Talvez o problema seja esse!  Eu já não sou a mesma pessoa!  As minhas prioridades mudaram.  O mais importante para mim já não é o ser aceite…  É o ser verdadeira comigo mesma e com a pessoa que sou.  E, quando sentimos que mudamos, já não há nada a fazer senão aceitar essa mudança, crescer e aprender com ela e, no meu caso, escolher um novo caminho.  Por muito que deseje manter as coisas na mesma rotina (e, na verdade, não o desejo), não consigo viver mais tempo esta mentira.  Acordo agoniada pela realidade que me rodeia e anseio, mais que tudo, cortar as amarras que me prendem a um passado que já não quero.  Continuar esta mentira é acabar por te odiar e por me anular a cada dia que passa …  não quero mais sentir-me assim…  presa, amordaçada, morta para a vida.  Por isso parto…  para que aquilo que vivemos não se torne, para mim, um erro de proporções bíblicas e possa continuar a ser uma doce memória de infância.

Sara”

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2011

Imaginação: Percursos

O ar estava frio…  Um daqueles dias frios em que ar parece estalar nos ouvidos.  Sandra e Luísa sentavam-se, frente  a frente, na esplanada do café, voltadas para o mar.  Era um daqueles dias de Inverno em que, teimosamente, o sol brilha sem deixar, no entanto, o seu manto confortável de calor.  Um dia belo em que as expirações transformavam-se em vapor em frente à boca.  Um dia em que mulheres, como as duas amigas , só se aventuravam a uma esplanada se a estética pessoal não se melindrasse com um nariz vermelho.
O empregado de mesa aproximou-se silenciosamente das duas mulheres, uma bandeja redonda magistralmente equilibrada na ponta dos dedos, e colocou em frente a cada uma o pedido feito à chegada.  Sandra engoliu a sua italiana, sem açúcar, de um só trago.  Só assim sentia o sabor explosivo do café a aquecer-lhe o corpo e o espírito.  Luísa verteu o conteúdos de dois pacotes de açúcar no seu cappucino.  Um cappucino extremamente doce era a sua forma de se sentir parte integrante do ritual do “cafezinho” que todos os seus amigos pareciam ter mas que, com muita pena sua, não lhe agradava ao palato.
- Há quanto tempo não vínhamos aqui?
Luísa levantou os olhos da bebida antes de responder.
- Julgo que desde o dia em que viemos consolar a Rita, quando o Joel saiu de casa com a roupa numa mala e a chave de casa da Renata no bolso…  Agosto, se não me engano…  Já lá vão 3 meses.
Sandra acenou com a cabeça.  Sim.  Devia ser desde aí.  Também fora a última vez que vira Rita.
- Devíamos nos esforçar para fazer isto mais vezes, não achas?
Claro que acho, pensou Luísa.  Mas o dia só tem 24 horas.  Oito das quais passamos a trabalhar em horários diferentes.  Tu e eu.  Folgas em comum…  Muito raras.  É o que acontece a quem trabalha por turnos e não sabe o que é passar os fins-de-semana (des)contraidamente a passear pelos shoppings de Portugal.  E, para além disso, eu tenho filhos…  tu tens as tuas viagens ao estrangeiro, pagas a crédito, duas vezes por ano.
- Pois devíamos.
Desviou os olhos para o areal.  Alguns cães aproveitavam a liberdade do Inverno para passear os donos na praia.  O vento e o mar depositavam na areia montinhos de espuma espessa.  A espuma que faltava ao cappucino.
- Amanhã faz 4 anos que me juntei com o Filipe.
Luísa voltou o olhar para a amiga.
- Já?  Quatro anos?
- Sim…  Quem diria.
Uma gargalhada seca e um encolher de ombros…  Quem diria?!?
- Ainda me lembro do dia em que saí de casa para ir viver com o Pedro.  Chorei todo o caminho da casa dos meus pais à nossa…  Os onze quilómetros todinhos. 
Sandra franziu o sobrolho.
- Choraste?  Porquê?
- Porque se acabava uma fase da minha vida…  Porque dizia adeus à minha casa de infância.
Sandra varreu o horizonte com os olhos.  Quem seriam os loucos que iam para o mar com aquele frio?  Quem se atrevia, desta forma, a lutar com as ondas gélidas num pequeno barco?  Ainda perdida no horizonte confidenciou:
- Eu fui o caminho todo a rir, a cantar e a brincar com o Filipe.
Luísa sabia ser esta a sua deixa.
- Porquê?
- Porque se acabava uma fase da minha vida…  Porque dizia adeus à minha casa de infância.
Luísa poisou a chávena.
Ainda não fora esta cafeína que a aquecera.